Fenômeno natural atua sobre um planeta mais quente e aumenta o risco de eventos extremos; centro de pesquisa desenvolve ferramentas para apoiar cidades na prevenção de inundações
O retorno do fenômeno El Niño, classificado por especialistas como um “Super El Niño”, reacende preocupações sobre a ocorrência de eventos climáticos extremos em diferentes regiões do planeta. Embora seja um fenômeno natural, seus efeitos tendem a ser mais intensos em um cenário de aquecimento global, ampliando riscos de secas prolongadas, ondas de calor, tempestades e enchentes.
Em entrevista ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o pesquisador Filipe Falcetta, da unidade Cidades, Infraestrutura e Meio Ambiente (Cima) e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) Cidades Resilientes a Inundações, explicou como o fenômeno influencia o clima e quais são os desafios para as cidades brasileiras.
Segundo Falcetta, o El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, alterando a circulação atmosférica e os padrões de chuva em diversas partes do mundo.
“O termo ‘Super El Niño’ é utilizado quando o aquecimento do Pacífico supera 2°C acima da média histórica durante vários meses consecutivos. Esse patamar indica uma probabilidade muito maior de ocorrência de eventos climáticos extremos”, afirmou.
O pesquisador destaca que o fenômeno é natural, mas seus efeitos são potencializados pelas mudanças climáticas provocadas pela ação humana.
“Entramos no que costumo chamar de ‘Era dos Extremos’. O El Niño passa a atuar sobre um oceano e uma atmosfera que já estão mais quentes, reduzindo a previsibilidade histórica e ampliando significativamente a intensidade de ondas de calor, secas e tempestades severas”, explicou.
Impactos diferentes conforme a região
Os efeitos variam conforme a localização geográfica. Nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, o El Niño costuma favorecer períodos de estiagem, afetando a agricultura e reduzindo o nível dos rios amazônicos, o que compromete o transporte e o abastecimento de comunidades.
Já nas regiões Sul e Sudeste, o cenário tende a ser o oposto, com aumento da frequência de tempestades intensas e chuvas extremas.
Como exemplo, Falcetta cita o Super El Niño de 1983, quando Blumenau (SC) sofreu grandes enchentes e a cidade de São Paulo registrou 121,8 milímetros de chuva em apenas 24 horas, provocando paralisação em diversos pontos da capital.
Segundo ele, se um evento semelhante ocorresse atualmente, os impactos poderiam ser ainda maiores devido ao crescimento urbano e à impermeabilização do solo.
“Uma chuva de 75 mm hoje gera cerca de 440 milhões de litros a mais de escoamento superficial do que gerava em 1985. Isso equivale a aproximadamente 180 piscinas olímpicas adicionais despejadas diretamente no centro da cidade durante uma tempestade”, destacou.
Ciência para cidades mais resilientes
Para enfrentar esse cenário, o IPT coordena o CCD Cidades Resilientes a Inundações, iniciativa cofinanciada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), voltada ao desenvolvimento de soluções para reduzir os impactos das enchentes.
O projeto prevê a criação da Plataforma ARCA (Aliança pela Resiliência das Cidades e das Águas), que utilizará gêmeos digitais das cidades, inteligência artificial, sensores, dados hidrológicos e informações meteorológicas em tempo real para simular cenários e apoiar gestores públicos na tomada de decisões.
A proposta também incentiva a adoção do conceito de “Cidades Esponja”, baseado em soluções naturais para retenção da água da chuva, como áreas verdes, infraestrutura ecológica e florestas urbanas, reduzindo a dependência de grandes obras de drenagem.
“O rumo do nosso CCD é promover transformação real, fortalecer a resiliência urbana e contribuir para a construção de cidades mais preparadas para enfrentar os desafios climáticos”, concluiu o pesquisador.
Fonte: Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e Fapesp.






















