Recuperações judiciais de grandes distribuidoras de insumos reduzem oferta de financiamento ao produtor e impulsionam novos modelos de crédito no Norte do Paraná
As dificuldades financeiras enfrentadas por grandes distribuidoras de insumos agrícolas têm provocado mudanças na forma de financiamento do agronegócio brasileiro. A recuperação judicial da Agrogalaxy e o processo de recuperação extrajudicial da Belagrícola, empresas que somam cerca de R$ 7,9 bilhões em dívidas, reduziram a oferta de crédito tradicional ao produtor rural e abriram espaço para novos modelos de financiamento.
A Agrogalaxy entrou com pedido de recuperação judicial em setembro de 2024, com passivo estimado em R$ 4,1 bilhões. O plano de recuperação foi aprovado pelos credores e homologado pela Justiça de Goiás em 2025. Já a Belagrícola, sediada em Londrina e controlada pelo grupo chinês Pengdu, protocolou recuperação extrajudicial em dezembro de 2025, com dívida estimada em R$ 3,8 bilhões, incluindo R$ 2,2 bilhões em débitos quirografários.
As duas empresas desempenhavam papel importante não apenas na venda de insumos, mas também no financiamento da produção agrícola, oferecendo sementes, fertilizantes e defensivos a prazo, geralmente com pagamento em grãos após a colheita. Com a redução desse tipo de operação, muitos produtores passaram a depender mais das linhas tradicionais de crédito bancário.
O cenário ocorre em um momento de aumento das incertezas no mercado internacional. A retomada das tensões entre Estados Unidos e Irã voltou a pressionar os preços dos fertilizantes e do frete marítimo. Como o Brasil importa entre 85% e 88% dos fertilizantes utilizados no país, a alta dos custos afeta diretamente o planejamento da safra de verão, cujo plantio começa a partir de setembro.
Além disso, o setor continua exposto aos riscos climáticos. Eventos extremos registrados nos últimos anos reforçaram a necessidade de mecanismos de proteção financeira. Apesar disso, apenas cerca de 10% da área plantada no Brasil possui cobertura de seguro rural, índice bem inferior ao observado em países como os Estados Unidos.
Novos modelos de financiamento
Com menor oferta de crédito por parte das revendas de insumos, empresas especializadas em crédito estruturado passaram a ampliar sua atuação no agronegócio.
Uma delas é o Grupo Ceres Investimentos (GCI), gestor de crédito para o setor que tem o BTG Pactual como sócio. A empresa escolheu Londrina para instalar uma superintendência regional dentro de um projeto de expansão nacional voltado às principais regiões produtoras do país.
Segundo o diretor de marketing estratégico, inteligência de mercado e dados do Grupo Ceres, Diogo Ruas Santos, a proposta é oferecer soluções financeiras adaptadas às características da atividade agrícola.
“O produtor e as empresas do agro não estão sem opção. O que falta, muitas vezes, é um modelo financeiro que entenda a sazonalidade e o risco específico de cada operação, em vez de tratar o crédito rural como um produto padronizado de banco”, afirma.
Entre as modalidades oferecidas estão operações de antecipação de recebíveis da safra, financiamento por meio de barter — em que os grãos são utilizados como forma de pagamento —, comercialização de commodities e estruturas voltadas ao armazenamento da produção.
De acordo com levantamento da empresa, um raio de até 250 quilômetros de Londrina concentra 264 municípios e aproximadamente 127,6 mil propriedades rurais, sendo quase 15 mil classificadas como grandes ou muito grandes, o que reforça o potencial da região para operações de crédito estruturado.
Seguro paramétrico ganha espaço
Outra aposta é o seguro paramétrico, modalidade ainda pouco difundida no Brasil. Nesse modelo, a indenização é liberada automaticamente quando indicadores previamente definidos, como volume de chuva ou temperatura, atingem determinados níveis, dispensando perícias em campo.
Segundo o Grupo Ceres, o mecanismo reduz o tempo de pagamento ao produtor e oferece maior previsibilidade diante de eventos climáticos extremos. A empresa também disponibiliza instrumentos de proteção contra oscilações no preço das commodities e utiliza ferramentas como imagens de satélite, drones e monitoramento remoto para avaliação dos riscos nas propriedades rurais.
Fonte: Grupo Ceres Investimentos, Agrogalaxy, Belagrícola e dados citados pela empresa e pela FGV Agro.






















