Resultados do Enamed e abertura de novas bolsas de residência ampliam debate sobre qualidade, especialização e formação contínua dos médicos

Depois de um período marcado pela expansão dos cursos de Medicina e pelo aumento do número de profissionais formados, o Brasil começa a enfrentar um novo desafio: garantir qualidade na formação e ampliar as oportunidades de especialização para quem deixa as universidades.

O debate ganhou força com os primeiros resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Segundo as informações apresentadas no material, dos 351 cursos de Medicina avaliados, cerca de 30% tiveram desempenho considerado insatisfatório. Diante dos resultados, o Ministério da Educação estabeleceu medidas de supervisão que podem incluir redução de vagas e suspensão de novos processos seletivos nas instituições com baixo desempenho.

Ao mesmo tempo, a formação de especialistas também passa por expansão. Em 2026, conforme os dados fornecidos, foram anunciadas mais de 3 mil novas bolsas de residência médica. Desde 2023, 447 novos programas teriam sido criados com apoio do Ministério da Saúde.

Para a médica Laura Pazzini, diretora do IPM PRO, esse cenário representa uma mudança de etapa na discussão sobre a formação dos profissionais no país.

“Durante muito tempo, a principal discussão foi como formar mais médicos e ampliar presença dos profissionais. Essa continua sendo uma questão importante, mas precisamos acrescentar outra: como apoiar médico depois que ele entra na faculdade e, principalmente, depois que recebe o diploma? Medicina exige processo de formação contínua. Residência, prova de título, atualização e desenvolvimento profissional fazem parte disso”, afirma.

Formação não termina com o diploma

Com formação em Oftalmologia, Laura passou pela preparação para residência, especialização e prova de título antes de direcionar a carreira para a área de educação médica. Segundo ela, o crescimento do número de profissionais aumenta também a importância de mecanismos de preparação e atualização ao longo da carreira.

Nesse contexto, empresas especializadas em educação médica passaram a investir não apenas em aulas e materiais, mas também em acompanhamento individual, análise de desempenho, bancos de questões, mentorias e ferramentas baseadas em tecnologia e inteligência artificial.

Segundo dados do próprio IPM, o número de alunos diretamente atendidos pelo ecossistema passou de aproximadamente 120, em 2023, para cerca de 5,1 mil em 2026. A empresa atua na preparação para residência e também em provas para obtenção de títulos de especialista.

“Existe diferença importante entre transmitir conhecimento e ajudar alguém a aprender. Hoje temos uma quantidade extraordinária de conteúdo disponível. Para muitos médicos, a dificuldade não está em encontrar aula ou livro, mas em entender o que estudar, em que momento, identificar suas deficiências e construir uma estratégia compatível com sua realidade”, explica Laura.

Tecnologia amplia personalização dos estudos

Outra mudança apontada no setor é o uso crescente de dados e inteligência artificial para identificar dificuldades individuais e organizar rotinas de estudo. A proposta é semelhante à adotada em outros segmentos educacionais, mas envolve uma responsabilidade adicional quando aplicada à Medicina.

“O objetivo final não pode ser simplesmente passar em uma prova. O exame é uma etapa objetiva da carreira, mas existe algo maior por trás dele: estamos falando de profissionais que tomarão decisões sobre a saúde das pessoas. Isso aumenta muito nossa responsabilidade como educadores”, afirma.

O IPM também passou a oferecer preparação para provas de título em áreas como Oftalmologia, Dermatologia, Medicina de Emergência e Ortopedia. A expansão ocorre em um mercado no qual um número maior de médicos busca residência, especialização e diferenciação profissional.

Laura ressalta, porém, que essas ferramentas devem funcionar como complemento à formação acadêmica e à residência, e não como substitutas.

“Não existe solução privada que substitua uma boa graduação ou uma boa residência, e nem deveria existir. O que estamos vendo é o surgimento de um ecossistema complementar. A pergunta é como podemos usar tecnologia, método, acompanhamento e dados para fazer com que cada médico aproveite melhor todo conhecimento que já está disponível”, explica.

Com a ampliação das avaliações dos cursos e das políticas voltadas à residência médica, a tendência é que a discussão sobre qualidade acompanhe cada vez mais o debate sobre quantidade de vagas. Além das universidades e hospitais, entidades médicas, poder público e organizações de educação continuada passam a fazer parte desse cenário.

“A medicina sempre exigiu estudo permanente. O que está mudando são as ferramentas que temos para tornar esse processo mais individualizado, mensurável e eficiente. Quanto melhor conseguirmos preparar quem cuida das pessoas, maior será o impacto sobre todo o sistema de saúde”, conclui Laura.

Fonte: informações fornecidas pelo IPM Educação/IPM PRO.